O Vinho desta semana

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terradopoSe há discussão vínica acalorada é sobre a introdução e utilização de castas estrangeiras por produtores nacionais. Há quem ache um sacrilégio arrancar cepas de castas nacionais, algumas com muitos anos, a caminharem para o esquecimento, em detrimento das grandes castas internacionais, como os duas que hoje compõem a nossa sugestão, a Syrah e a Petit Verdot. É por isso escolha polémica o vinho desta semana, o que nos agrada.

Há quem defenda a ideia que foram precisamente estas castas estrangeiras, em detrimento da autóctone Castelão (a famosa Periquita), que trouxeram diversidade e que permitiram o desenvolvimento da região da Península de Setúbal e por conseguinte a sua afirmação. Do outro lado da barricada está quem ache que esse logro vai sair caro aos produtores que enveredaram por esse caminho e que dentro de pouco tempo vão chegar à conclusão que o grande trunfo que têm/tiveram é precisamente a identidade das castas nativas que os distinguirão de todos os outros. O futuro encarregar-se-á de nos mostrar de que lado está a razão.

No presente, apesar do consumidor continuar a ver o Douro e o Alentejo (erradamente) como um garante de qualidade, os vinhos de Setúbal têm ganho espaço e hoje algumas marcas começam mesmo a ter o seu lugar nas grandes referencias nacionais.

Uma empresa que assumiu esta revolução como ninguém foi a Casa Ermelinda Freitas. Esta empresa familiar, dirigida exclusivamente por mulheres de há muitos anos a esta parte, celebrará em 2020 o seu centenário e é hoje com os seus 250 hectares de vinha plantada na localidade de Fernando Pó, concelho de Palmela, uma das maiores do sector na região. A sua actividade esteve assente durante muito tempo na venda de vinho a granel produzido pelas suas próprias vinhas e foi já no final do século XX que comercializou o seu primeiro vinho engarrafado, o Terras de Pó, uma marca hoje sobejamente conhecida.
O vinho desta semana nasce precisamente nessa marca, aqui acrescentada pela denominação Castas, as tais estrangeiras que já falámos. E se há conservadores e fundamentalistas do tema que vão olhar para ele de soslaio, gritando diatribes ao estilo moderno e ao excesso de concentração, a verdade é que goste-se ou não do estilo, por 8€ conseguimos ter a oportunidade de beber um excelente vinho tinto.

É por isso tinto guloso, na extravagancia da fruta madura, na extração exagerada, nas deliciosas e frescas notas de menta, nos taninos suaves e, num final arrebatador. Tem bastante corpo e com isso algum peso, é certo, mas nestes dias frios vai lindamente numa conversa de amigos, se à lareira tanto melhor. Um vinho que se pode beber agora ou guardar, o que só o vai beneficiar pois está a crescer. Posto o descrito, usem e abusem deste Terras do Pó Castas Syrah e Petit Verdot 2009, pois não sabemos por quanto tempo vamos conseguir tanto por 8€.

Para terminar, uma sugestão irreverente para viverem o vinho fora de casa. Para ir sem preconceitos, corajosamente, sem medo do que se vai encontrar. A proposta do bar-garrafeira Os Goliardos (à Praça da Alegria, Lisboa) para amanhã, sexta-feira 22, a partir das 19:00 e pela noite dentro, prende-se com a prova de “vinhos estranhos que se entranham”, segundo os próprios, “Uma verdadeira Overdose de loucura vínica!!!!!!!”. Parece que se trata de vinhos atípicos, experiências de “produtores malucos”, uma prova que foge a tudo o que estamos habituados. Tudo isto acompanhado por petiscos turcos, preparados pelos próprios. A coisa tem o preço de 20€ por pessoa e podem aceder a mais informações lá no sítio dos próprios. Diversão garantida, para uma friday night diferente. À vossa!

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Jorge Nunes

Jorge Nunes

Colheita de 70. Enófilo apaixonado, Alfacinha babado, Melómano amador, Benfiquista assumido. Autor do Blog Jojojoli onde partilha a sua paixão pelo mundo do vinho e da gastronomia. Co-autor do projecto Desafios da Adega onde se democratiza o enoturismo através de visitas a produtores.

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