Quanto custa uma noite contigo?

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O homem (é assim que quer ser tratado, pediu anonimato) está sentado no sofá, isolado do resto da família, que preenche o domingo soalheiro com aquele ruído conhecido.

Filho, nora, netos, o almoço entre a mesa da sala e a cozinha. As horas de domingo, compassadas. Ele agarra no jornal.  O homem lê um anúncio no jornal. “Mulher divinal promete fazer-te o que nunca arriscaste. Sou eu!”.

O homem anota o número do telemóvel no seu iphone e diz que vai passear o cão. Liga, com a respiração alterada. Combina um encontro para o final do dia na área de serviço da auto-estrada.

Regressa a casa com o cão,  aliviado (o cão). Diz que um amigo ligou-lhe  a pedir ajuda para um trabalho. O homem de meia-idade é arquitecto, sabe de que são feitas as dimensões dos sonhos comandados pelas mãos sobre um cavalete.

Hora combinada. Apanha uma mulher lindíssima na área de serviço e decidem ir para o  famoso Requinte Motel. Trocam palavras breves, de circunstância. Olá, como te chamas, vamos para onde, não quero correr o risco de ser reconhecido.

O Motel  tem apenas uma pessoa à entrada, que dá as chaves do quarto e as recebe de volta. Tudo o resto é feito na máxima privacidade: há uma garagem por baixo do quarto, umas escadas de acesso ao mesmo, que tem uma enorme e redonda cama com colchão de água. A casa de banho muito asseada. Uma televisão a debitar pornografia. Um intercomunicador para pedir bebidas, acertar pagamento, tudo tratado através de uma gaveta que leva e traz pedidos e recados.

O homem sente-se mais tranquilo, ali. Senta-se na cama. A mulher, descontraída, traz um sorriso rasgado desde o carro. Tu nunca fizeste nada disto, diz-lhe. Ele responde que não, mas gostava de explicar-lhe porquê. Ela tem o tempo todo do mundo dela.

É de um outro mundo que ele lhe quer falar. Puxa-a para a sua frente, na cama redonda, aquática. Olha-a bem de frente. A pele bem tratada, o decote sugerindo uns seios perfeitos, os lábios carnudos. O sorriso dela, à espera.  A mulher envolve as pernas dele com as mãos, procurando o botão das calças. Espera, diz ele. Eu não desejo  fazer nada do que tu pensas. É a minha profissão, responde-lhe a mulher cujos cabelos cheiram a jasmim.  Já sei, queres uma fantasia que não concretizas com a tua esposa (ela diz esposa). Vestires-te como eu, ou chicotes, cinto de ligas, seres submisso. Nada disso, responde o homem.

(na televisão pendurada numa das paredes, homens e mulheres comem-se pornograficamente, sem um lastro de amor)

Ela sorri mais uma vez. Queres tudo, anal, oral, dupla penetração, eu tenho aqui um vibrador, o meu melhor amigo, se quiseres. Queres tudo o que não fazes em casa. Conheço o estilo, sou experiente em homens irresolutos e cobardes.

Não, não, diz-lhe ele, olhando-a nos olhos. Sou IMPOTENTE.

O sorriso que foge da cara dela. Lamento, mas como, quando? Álcool, uma febre insana? Não, responde o homem, foi um desgosto de amor que me deixou assim. Ela passa a mão pelo rosto dele. Casei com a mulher errada, construí uma família, sem amor, só respeito, por aprovação social. Tinha um amor secreto na minha cabeça, nunca correspondido. A mulher da minha vida. Eu julgava que ela também me amava, em segredo, e um dia percebi que não. Foi o meu 9/11, muito antes das torres gémeas serem arrasadas lá no outro lado do mundo.

Então fugiste para a frente. Sim, com os dois pés. Tive um filho e uma filha, mas era tudo tão doloroso, o quarto, a cama, o sexo como uma obrigatória rotina, que um dia acordei com o meu pénis morto. Refugiei-me a desenhar casas para casais felizes, espero.

Ela, que nunca se tinha sentido desarmada, fica silenciosa, baixa a cabeça. Estou a roubar o teu tempo, este é o teu trabalho, diz-lhe o homem. Não, responde a mulher. Falaste do amor, e da falta dele, conheço esses terrenos pantanosos do coração.

Posso pedir-te uma coisa? Podes, mas quero que primeiro me digas como manténs esse casamento, como sobrevive a tua mulher sem o teu calor. Não sei, ela aceitou isso como uma fatalidade, uma doença crónica. Respeita-me e fez as suas fugas. Vive para a harmonia da família, gosta dos Natais, dos almoços de domingo, como o de hoje, nunca se queixa, não sei se dormiu com mais alguém, suspeito que não.

Tens uma grande companheira, sabes isso. Sim, respeito-a muito, são mais de 30 anos de silêncio angustiado, sem um remorso, pelo menos não vejo isso na cara dela. Não sou muito bom a ler corações, já deves ter percebido.

A mulher suspira, não sabe como sair desta. Achava eu, que no limite, me ias perguntar porque estou nesta vida, como vim aqui parar, se gosto, se sofro, se todos os homens são iguais, se atinjo o orgasmo ou finjo, se faço sexo maquinal, sem prazer. Se tenho um filho a quem quero dar a vida tranquila que não pude ter.

Não quero saber nada disso. Queria só pedir-te que me deixasses ver o teu corpo e te deitasses nua a meu lado.

E o homem começa a despir-se, lentamente. Ela faz o mesmo, e quando ele está já deitado na cama, mostra-lhe o seu corpo inteiro e bem tratado, ardente.  Aproxima-se dele, lentamente, nem um beijo, nem uma carícia, só os corpos nús, frente a frente. Os pés em frente dos outros pés, os rostos quase próximos, quase íntimos.

O homem chora lentamente. Olha-a de alto a baixo e sorri, deixando as lágrimas fugirem-lhe para dentro da boca semi-aberta.  Ela olha-o de alto a baixo e sorri também. Ficam assim até ser noite e os olhos de ambos se fecharem.

A manhã chega com aquela luz laranja que antecipa um dia quente. Eles não se taparam, estão como dois troncos abandonados numa floresta, sobreviventes dum incêndio.

Olham um para o outro. Ela pergunta, de repente: quanto custa passar uma noite contigo? Nunca me senti tão feminina, tão minha. Ele não percebe o que ela sugere com uma pergunta aparentemente sem sentido. Sim, se alguém tiver de pagar sou eu, pagam-me para me usarem, se lambuzarem no meu corpo, sem respeito, sem darem mais nada deles.

Agora  que acordei ao teu lado tenho a boca a saber a maresia.

Voltei a ser uma mulher.

noite-contigo

 

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Francisco Roldão

Francisco Roldão

Francisco Roldão, 41 anos, jornalista
Apesar de não ter resignado como Bento XVI, assume ter no seu espírito a diva Amália Rodrigues, uma rock-star frívola como Liam Galhagher, um Woody Allen em ponto pequeno, o Mário de Sá Carneiro fase pré-suicídio e uma Frida Khalo de bigode na tela, por isso não perdeu a esperança de vir a tornar-se um dia ajudante de cabeleireira. Tem feito trabalhos na área do jornalismo e comunicação. É pai, filho, companheiro, padrasto e desempregado, tarefas árduas que nem sempre desempenha com brilhantismo. Sonha um dia abrir uma frutaria de aldeia e escolher com doçura morangos para velhinhas sábias com mãos de filigrana. Música, cinema, tabaco e F.C.Porto são vícios de que não se quer livrar

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